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21 de fev de 2013

[Trabalho da ECO] Caso TED: uma nova forma de consumir educação


Resumo: Este artigo visa apresentar um breve estudo sobre o evento TED, atualmente internacionalizado através do meio digital, e relacioná-lo com as formas de consumir e produzir conhecimento hoje já difundido e aceito em nosso meio. Utilizam-se os conceitos de capital cultural e social, além do termo inteligência coletiva e “think tanks” para justificar o crescimento exponencial da relevância deste no meio organizacional, mostrando o que é o evento através de algumas palestras que ganharam destaque na web.

Palavras Chaves: sociedade do conhecimento, Think Tanks, Inteligência Coletiva, Digital, capital cultural, capital social, capital intelectual.

Introdução:
Desde a revolução industrial e com o avanço no desenvolvimento das tecnologias, o trabalho físico está sendo quase completamente substituído pela máquina. Desde a revolução digital, muito do trabalho exato é feito pelo computador, o que gera como consequência mais tempo livre para o ser humano pensar e ser criativo. É apenas a criatividade, a capacidade de entender as referencias para se compreender as formas de propagação do conhecimento (capital cultural) e o potencial de interação entre os indivíduos (capital social)1 que torna o ser humano insubstituível. Por causa dessas alterações no nosso corpo social, passamos a viver o que muitos autores chamam de “sociedade do conhecimento”, ou seja, pensar de uma forma diferente, ser autêntico, é uma quase uma obrigação para fazer parte da coletividade.
Rogério da Costa, professor de Comunicação e Semiótica da PUC-SP, defende em seu artigo “Inteligência Coletiva: comunicação, capitalismo cognitivo e micropolítica” que hoje o sistema político-econômico é o neocapitalismo, um modelo que inclui o capital humano e cultural. Nossa economia atual vive de uma relação estreita entre o sistema produtivo e financeiro e o capital social. Dessa forma se torna necessário a criação de organizações que potencializem a troca de informação entre os indivíduos e assim mantenham a economia mundial em desenvolvimento.
O termo “Think Tanks”, traduzido ao português como “Usinas de Ideias”, são justamente “instituições ou associações que atuam produzindo e difundindo conhecimentos em assuntos estratégicos, visando influenciar transformações sociais, políticas, econômicas ou científicas” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Usina_de_ideias), ou seja, são espaços de discussão. Apesar de parecer inovador, o termo já existe desde a década de 50 e instituições que seguem esse modelo datam desde o séc. XIX. No entanto, o que existia antes era em um nível político militar e apenas na década de 90, quando os estudos sobre capital social se consolidaram que as empresas começaram a perceber a necessidade de se investir no capital intelectual, de realizar uma análise sobre a gestão do conhecimento e estimular a troca de ideias2, e estas acabaram por incorporar os “think tanks” em suas filosofias empresariais.
Ainda dentro da ideia de unir as pessoas de forma a potencializar a capacidade intelectual da sociedade existe o conceito de “inteligência coletiva”, criado por Pierre Levy em seu livro “A Inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço” onde definiu a mesma como “uma inteligência distribuída por toda a parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências. Acrescentemos à nossa definição este complemento indispensável: a base e o objetivo da inteligência coletiva são o reconhecimento e o enriquecimento mútuos das pessoas, e não o culto de comunidades fetichizadas ou hipostasiadas. Uma inteligência distribuída por toda parte: tal é o nosso axioma inicial. Ninguém sabe tudo, todos sabem alguma coisa, todo o saber está na humanidade”10. E o que hoje em dia torna possível que exista de fato uma inteligência coletiva, interdependente, interativa e colaborativa é a internet, uma rede invisível que cada vez está mais presente no dia a dia dos indivíduos e permite que qualquer pessoa compartilhe sua ideia e que, quando parte de um conjunto maior, pode formar algo memorável e capaz de mudar a sociedade.

O TED
A sigla TED significa “Technology, Entertainment, Design” que em português significa “Tecnologia, Entretenimento e Design”. É uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é espalhar ideias, ou seja, a organização como é hoje, internacionalizada com os “TED talks” disponíveis no site http://www.ted.com/, a possibilidade de discussões na aba “TED Conversations” além dos próprios eventos, que são uma oportunidade de interagir com outros indivíduos, acaba tornando o TED, como um todo, em um dos maiores “Think Tanks” mundiais. Toda a proposta do evento, desde a sua concepção até os dias atuais, considerando todo o desenvolvimento que aconteceu ao longo dos anos, gira em torno da missão “Espalhar ideias” e divulgar aquelas que mais chamam atenção, premiar e tornar possível às que podem mudar a sociedade.
O evento surgiu em 1984, mas mesmo com grandes palestrantes em sua programação, o mundo organizacional ainda não estava pronto para absorver e entender a importância do mesmo, e sendo assim, este não funcionou, não lucrou. Foram necessários mais seis anos de espera, e só em 1990, quando as organizações começaram a perceber a importância do capital social e intelectual, que o TED voltou a acontecer, e desta vez obteve lucro tornando possível a sua continuidade regular. Juntando pessoas influentes de diferentes áreas de conhecimento, tanto para falar quanto para assistir as palestras, o evento conseguiu criar seu diferencial e começar a realizar a sua missão de espalhar ideias.
Nessa primeira década de existência, o TED não utilizou verba para publicidade nem assessoria de imprensa. Foi ganhando relevância devido à qualidade de suas palestras e convidando as pessoas certas, pois o evento funcionava como um segredo, acessível apenas aos melhores dentro de sua área de conhecimento. Logo no começo os criadores do evento já perceberam que expandir as competências tanto dos palestrantes quanto dos atendentes seria interessante e daria uma nova perspectiva ao projeto, sendo assim, pessoas fora do ‘trio’ tecnologia, entretenimento e design, foram convidadas a participar. Dessa forma, a plateia do evento rapidamente passou a incluir cientistas das mais diversos campos, músicos, líderes religiosos e outros. O evento nunca se importou com a idade de seus participantes, tendo casos de adolescentes, como a pianista Jennifer Lin, de 14 anos, que surpreendeu a audiência ao improvisar durante 6 minutos de sua apresentação.
Com o passar do tempo e a expansão significativa da marca, pois ‘TED’, cada vez mais, se torna mais relevante no cenário mundial, aconteceu à popularização. Mas ainda hoje, para participar de um evento TED, é necessário justificar seu interesse de ir, preencher um formulário e mostrar para a organização que você “merece” atender. Essa mudança na direção do evento, o tornando mais acessível a todos que tenham interesse, começou no ano de 2000, quando os dois idealizadores, Chris Anderson e Wurman, se encontraram para decidir o futuro da conferencia. O primeiro, através de sua fundação, adquiriu os direitos da marca TED e até atualmente é o curador da mesma, enquanto o segundo, já mais idoso, decidiu se aposentar. E foi nessa mudança de direção que o TED se tornou o espaço mundial de discussão e difusão de ideias que é hoje.
O evento manteve seu padrão de qualidade, muito forte até hoje, mas continuou a crescer com o conteúdo das palestras, expandindo e abrindo espaço para as mais diversas esferas de conhecimento. Pela primeira vez, o evento aconteceu fora dos EUA, pois o desejo de criar um verdadeiro impacto global era grande. E assim, foi criado o “TED Global”, uma conferencia que atualmente ocorre no Reino Unido, e o “TED Prize”, um concurso cujo ganhador conquista recursos tanto financeiros quanto tecnológicos para tirar a sua ideia do papel.
Ainda com o objetivo de expandir o evento e tornar acessível a qualquer pessoa interessada, as palestras começaram a ser disponibilizadas na web, primeiro em um canal do site “youtube”, mas com a relevância adquirida e o objetivo de ser maior, em 2007 surgiu o website do ‘TED Talk’. Foi criado também um projeto de tradução aberta, para que pessoas e países que não falam o idioma inglês pudessem participar e entender as conversas.
Mas a ideia globalizada começou a perder força em 2009, quando surgiu o primeiro TEDx, ou seja, o mesmo formato já estabelecido, mas organizado de forma independente e com um foco específico. Essa quebra se fez necessária para a contínua expansão, porém ao mesmo tempo, a missão de espalhar ideias começa a ficar restrita aos lugares de origem. Estes passam a se tornar uma forma de resolver problemas específicos, de gerar conhecimento dentro de uma área geográfica. Ao mesmo tempo em que permite uma participação de um público maior, até pelo fato de haver mais palestras, os TEDx é contraditório pois acaba por tornar suas palestras em algo exclusivo da região de origem.
Apesar de TEDx ter se tornado local, e cada vez mais possuírem evento muito específicos, como aconteceu aqui na cidade do Rio de Janeiro o TEDx UFRJ, dentro da cidade universitária, abrindo um espaço para professores, alunos e ex alunos se encontrarem e divulgarem suas pesquisas e descobertas ao longo dos anos. O tema do evento foi “encontros” justamente porque a UFRJ é uma universidade grande, com campus espalhados e pessoas de áreas diferentes, cujos pensamentos poderiam se complementar para criar algo inovador, acabam nunca se conhecendo. E esse evento abriu esse espaço.
Mas para utilizar a marca é preciso pedir permissão no site, onde há um manual com instruções de como criar a identidade visual, como escolher e convidar os participantes, inclusive direciona os novos organizadores sobre como entrar em contato com as empresas para pedir patrocínio, havendo inclusive um e-mail padrão a ser enviado e uma apresentação. A fundação Chris Anderson, atualmente detentora da marca “TED” faz questão de fornecer o apoio necessário para que os eventos TEDx tenham, dentro do possível, não só o formato já consagrado de palestras curtas (de no máximo 18 minutos) e espaços para discussão entre os participantes (não só os palestrantes, mas os atendentes também), como também a qualidade das conversas. Os participantes devem ser pessoas que de alguma forma fizeram a diferença na sociedade, que possuem uma ideia que pode de fato melhorar aquele local.
Assim, qualquer marca que se interessar em patrocinar um evento TEDx, é possível. No site do TED 2013, já com o tema (“The Young, The Wise, The Undiscovered” – O jovem, o sábio, o não descoberto) existe uma pagina de “Sponsors” (patrocinadores) que possui 42 marcas, entre elas a Coca-Cola, a Disney, a Shell, a Gucci, o CitiBank, o Google e etc., ou seja, tanto marcas ligadas diretamente com a tecnologia quanto marcas de moda e do setor financeiro, querem fazer parte desse evento, querem ter seu nome conectado com uma marca já definida por ser o futuro, por pensar, por ajudar a desenvolver uma inteligência coletiva, por permitir a troca de informações entre as pessoas.
E muitas dessas empresas utilizam o espaço do TED para mostrar ao mundo suas últimas descobertas, seus próximos lançamentos no campo da tecnologia, do design e do entretenimento. Muitos artistas, convidados por terem se diferenciado de alguma forma, normalmente através da tecnologia, utilizam o espaço para divulgar sua arte, como o maestro Eric Whitacre que montou um coral virtual com 2000 vozes. Pessoas que nunca se viram pessoalmente, mas tiraram parte do seu tempo para gravar, em sua casa ou seu espaço, uma linha da partitura divulgada pelo maestro em seu website e depois enviaram para o mesmo, que com a ajuda de editor, criou o maior coral virtual. Na sua palestra do TED, em março 2011, Eric utilizou seu espaço para mostrar um novo vídeo, que ainda estava sendo editado, e por isso tinha apenas alguns minutos, mas já foi o suficiente para demonstrar como o a internet pode ser usada para coisas grandiosas, desde a criação de um coral virtual de música clássica até a disponibilização de uma série de palestras que levam as pessoas a pensarem, e até quem sabe mudarem suas atitudes.

Considerações Finais

O TED surgiu e faz sucesso porque vivemos em uma sociedade do conhecimento. Caso contrário, este jamais teria as proporções que tem hoje. E o evento continua a crescer, abrindo recentemente uma plataforma para auxiliar na sala de aula, que serve tanto para conectar professores com suas lições a animadores digitais, ou seja, é uma ferramenta que possibilita a transformação de uma matéria em vídeo animado. Nesta ainda é possível criar perguntas abertas e de múltipla escolha, dividir com seus alunos e controlar como estes estão se saindo. É mais uma prova de que na nossa sociedade existe um ideal de que todo o conhecimento estará disponível para quem se interessar pelo mesmo.
Além disso, o TED é uma forma de potencializar o capital humano, cultural e social que existe em todos nós. No momento em que as pessoas se disponibilizam a responder os tópicos do “TED Conversations” com verdadeiros trabalhos acadêmicos, trocam conhecimento durante os eventos e após, através das redes sociais e comentários nos vídeos. De uma forma coletiva, são escolhidas as melhores ideias que terão um investimento para serem realizadas. A interação social acontece além das barreiras geográficas.
E se o TED é um espaço para pensar, discutir ideias e definir para onde estamos indo, tem um objetivo de alterar a sociedade de uma maneira positiva, então pela definição do termo pode ser considerado um dos maiores “Think Tanks” atuais. Muitos dos encontros não acontecem pessoalmente, mas virtualmente. E com isso cria-se uma rede de inteligência coletiva que vai além das marcas presentes, além da marca ‘TED’.

Referencias Bibliográficas:
1 – DA COSTA, Rogério “A Inteligência Coletiva: cartografando as redes sociais no ciberespaço” disponível em http://br.monografias.com/trabalhos/inteligencia-coletiva-redes-sociais-ciberespaco/inteligencia-coletiva-redes-sociais-ciberespaco.shtml

2 – DA COSTA, Rogério “Inteligência coletiva: comunicação, capitalismo cognitivo e micropolítica”, Revista FAMECOS - Porto Alegre - nº 37 - dezembro de 2008

3 – DA COSTA, Rogério “Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidades pessoais, inteligência coletiva”, Interface - Comunic., Saúde, Educ., v.9, n.17, p.235-48, mar/ago 2005

4 – WEAVER, R. Kent “The Changing World of Think Tanks”, The Brookings Institutions, Setembro 1989

5 – LUCCI, Elian Alabi “A Era pós-industrial, a sociedade do conhecimento e a educação para o pensar”, Editora Saraiva, disponível em http://www.hottopos.com/vidlib7/e2.htm

6 – Artigo “Usina de Ideias” disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Usina_de_ideias

7 – STONE, Diane “Think Tanks and Policy Advice in Countries in Transition”, Asian Development Bank Institute Symposium: “How to Strengthen Policy-Oriented Research and Training in Viet Nam”, Agosto 2005. Disponível em  http://www.adbi.org/discussion-paper/2005/09/09/1356.think.tanks/think.tanks.definitions.development.and.diversification/

8 – GROSSO, Kerley Soares de Souza Grosso “Sociedade do conhecimento: Uma sociedade sem fronteiras”disponível em http://pt.shvoong.com/internet-and-technologies/1813704-sociedade-conhecimento-uma-sociedade-sem/

9 – SQUIRRA, S. “Sociedade do Conhecimento” In MARQUES DE MELO, J. M.; SATHLER,L. Direitos à Comunicação na Sociedade da Informação. São Bernardo do Campo, SP: Umesp, 2005; disponível em http://www.lucianosathler.pro.br/site/images/conteudo/livros/direito_a_comunicacao/254-265_sociedade_conhecimento_squirra.pdf

10 – LEVY, Pierre “A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço” Edições Loyola. 2ª edição: fevereiro de 1999. Também disponível em espanhol em: http://inteligenciacolectiva.bvsalud.org/public/documents/pdf/es/inteligenciaColectiva.pdf

11 – Artigo Inteligência Coletiva disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Intelig%C3%AAncia_coletiva

12 – Todas as informações sobre o TED foram obtidas no próprio site do evento:

13 – SHIRKY, Clay “A Cultura da Participação”, Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2011

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