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6 de dez de 2011

[Trabalho da ECO] Filme: Cidadão Boilesen


Título original: Cidadão Boilesen
Lançamento: 2009 (Brasil)
Direção: Chaim Litewski
Duração: 92 min
Gênero: Documentário

‘Cidadão Boilesen’ é um documentário que se utiliza de diversas técnicas audiovisuais desenvolvidas ao longo da história do cinema. Há imagens de arquivo, documentos com voz over ressaltando as partes relevantes ao documentário, além de entrevistas com jornalistas, militares, políticos, familiares, amigos e pessoas que de alguma forma participaram da vida do personagem principal, o já falecido Henning Albert Boilesen. Pode-se dizer que as entrevistas geram a verdadeira cara do documentário, com a presença de informações aparentemente contraditórias quanto ao caráter de Henning. De um lado temos o depoimento do filho – Henning Boilesen Jr. – que ainda acha que o pai é um herói e toda essa história é uma grande ficção, em seguida temos o depoimento do Carlos Eugênio da Paz, que foi militante do MRT e conta como fez parte dos planos de execução do empresário. Usando os subgêneros dentro do documentário exemplificado por Bill Nichols, o classificamos como um documentário participativo. O filme quer mostrar uma perspectiva mais ampla e histórica e para isso usa a entrevista. “A entrevista permite que o cineasta se dirija formalmente às pessoas que aparecem no filme em vez de dirigir-se ao público por comentário com voz-over. No documentário participativo, a entrevista representa uma das formas mais comuns de encontro entre cineasta e tema.” (NICHOLS, Introdução ao Documentário, 2006).
O diretor desse filme foi Chaim Litewski, que em entrevista ao site ‘cineclick.com.br’ conta que já conhecia os rumores sobre o Henning desde 1968, quando o viu em entrevista na extinta TV Tupi, e o mesmo o intrigou de tal forma que continuou pesquisando ao longo dos anos. A idéia inicial era escrever um livro, porém este já havia sido lançado na Dinamarca – país de origem do Boilesen – resolveu continuar pesquisando e criar um documentário, pois sempre achou essa história muito parecida com ficção. Ele conta ainda que o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra se recusou a gravar uma entrevista, e se disponibilizou apenas a responder as perguntas e enviá-las. Como essa foi a primeira vez que o Coronel deu um depoimento sobre a Operação Bandeirante e falou sobre o Boilesen, o diretor quis usar a entrevista, então pediu a outra pessoa para ler as respostas e acrescentou ao filme.
Chaim Litewski conclui a entrevista falando: “Como diretor, não quero dar respostas ou indicar o que é certo ou errado, mas, na medida em que o documentário oferece um leque de visões, opiniões, conceitos e memória sobre a época discutida, eu certamente espero que auxilie o espectador interessado em um entendimento maior sobre o período em questão. Espero também o filme que sirva de ponto de partida para que se estude mais profundamente esse tema. Para mim isso já seria uma grande vitória.” (LITEWSKI, em entrevista ao site cineclick.com.br)
As entrevistas, sem dúvida, guiam o filme. Mas um documentário apenas com isso seria monótono e não chamaria tanta atenção. Assim, para gerar um contraponto e ajudar na reflexão do publico, há cenas de filmes de ficção, que são inseridas como que para ilustrar o que estava acontecendo na época no Brasil.
O filme que é usado principalmente para ilustrar a morte do personagem é o “Pra Frente Brasil”, que é de 1982, ou seja, foi produzido em plena ditadura, por Roberto Farias. Esse filme é uma ficção cuja história fala sobre o que está acontecendo com o Brasil enquanto a população está prestando atenção nos jogos da copa do mundo de 1970. É interessante notar nesse filme como as referencias as militares são mínimas e não há uniformes dos mesmos em nenhum momento do filme. O único ‘coronel’ que aparece no filme está apenas com uma roupa verde, quase da mesma cor que os uniformes do exercito.  O diretor Roberto Farias aparece no filme ‘Cidadão Boilesen’ contando como quis fazer um filme que não sofresse censura, porém no dia seguinte da estréia, este foi censurado. Ainda nessa entrevista, nos conta que o nome do empresário no filme “Pra Frente Brasil”, que se recusa a ajudar o Antonio Fagundes a encontrar seu irmão e confessa ajudar financeiramente a tortura, foi baseado no nome do Boilesen, assim qualquer semelhança não foi consciência. Ele conta que mesmo na época já existia os rumores e ele quis fazer uma ‘homenagem’. Celso Amorim, na época presidente da EmbraFilmes, e a pessoa que aprovou o financiamento do filme “Pra Frente Brasil”, diz em entrevista no filme “Cidadão Boilesen” que teve que renunciar ao cargo assim que o primeiro filme foi ao ar, em 82.
Para se diferenciar dos outros documentários, Chaim ainda faz uso da leitura da peça “Sonata Tropical”, do dramaturgo Roberto Elisabetsky. Os atores Paulo Betti e Tuna Dwek que realizam essa “ficção” dentro do documentário. Essa peça tem como temática a intervenção dos empresários na época da ditadura justamente para deter as lutas armadas. A peça foi escrita depois da experiência do dramaturgo, que estava passando pelo local onde aconteceu o assassinato do empresário.
Durante todo o filme percebemos duas visões de mundo, uma que denuncia o personagem, chamando-o de torturador, financiador da ditadura e outras coisas, mas em seguida permite-se entrevistas com pessoas como o filho, amigos próximos ou representantes de empresas americanas que defendem suas ações como necessárias para manter “a paz no país”. Percebemos que na primeira metade do filme o personagem é mais simpático, uma criança normal, um cara que atingiu seus objetivos vindo ao Brasil e se tornando diretor de uma empresa tão grande e poderosa como a Ultragás – maior empresa de gás do Brasil à época. Já na segunda metade do filme, somos apresentados a um lado mais obscuro do personagem, as ‘provas’ que levaram a resistência o colocar na lista e posteriormente assassiná-lo.
A imagem de Henning está sempre sendo contraposta durante todo o tempo no filme. Uma das entrevistas mais interessante é com a Helga Mohr uma arquivista do arquivo municipal de Fredericksenberg que abre o boletim da época de colégio e mostra como ele era apenas mais um aluno regular. Ainda tinha uma observação nesse boletim, só mostrada na segunda metade do filme, em que ele teria participado de um incidente durante o tempo escolar. Foi um caso simples, que chamou a atenção do professor o suficiente para reportá-lo e leva o espectador a pensar se desde criança ele já não era um tipo de torturador.
Durante todo o filme a imagem de Boilesen é construída e desconstruída como um mito, um pessoa além do seu tempo, um sociopata que tortura pessoas.
Um contraponto bem forte nesse filme é entre o Carlos Lamarca, um ex-capitão do exercito que desertou e virou um líder da resistência a ditadura, e o Boilesen, um empresário estrangeiro, que vem ao Brasil, assume um cargo importante em uma empresa de base no país, financia a ditadura militar chegando a participar e trazer equipamento para facilitar a tortura. Esses dois personagens são vistos e colocados como opostos nesse filme. Percebendo nas entrelinhas, vimos como Lamarca era o herói da resistência, enquanto Boilesen era um sociopata, com um grande lado negro.
Há ainda no filme a presença de propagandas militares e músicas da época, sempre com imagens contrastantes. A música é para levantar o astral do povo, e as imagens são da polícia acabando com as manifestações. É possível perceber que o cineasta queria produzir um filme o mais neutro possível, permitindo a fala de várias partes envolvidas, porém percebemos também que o caráter de denuncia acaba prevalecendo.
Durante o filme é deixado claro que o Boilesen era apenas um nome no meio de muitos outros, ou seja, sem o apoio do empresariado da época, seria impossível para os militares darem o golpe e se manterem no poder por tanto tempo.


Bibliografia:
·         NICHOLS, B. Introdução ao Documentário. 2006 Editora Papirus.

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